I.
Considere-se o homem que abre um livro antigo e encontra, nas suas margens, anotações de uma mão que não é a sua — um leitor anterior, há muito morto, que compreendeu as frases melhor do que a época que o sepultou. Há qualquer coisa nesse encontro que a Europa, no essencial, se recusou a viver.
Para um continente que outrora forjou a própria gramática do autogoverno — o Althing em Þingvellir, no ano 930, as cartas hanseáticas, os pactos cantonais suíços, a aposta milenária da República de Veneza no poder limitado — o europeu moderno fala de liberdade como se ela tivesse chegado num navio do ocidente, exportação americana, cunhada de fresco em 1776 e reembalada para um continente que se cansou de ler as suas próprias margens.
É uma mentira. E é uma mentira cómoda, porque absolve. Se a liberdade é americana, então a sua ausência em Bruxelas é matéria de política externa. Mas se a liberdade é nossa — forjada aqui, nestas cidades antigas e nestes largos frios —, e a ela renunciámos, então a sua ausência é uma falha moral, e a nós compete-nos repará-la.
Escolhemos a leitura mais difícil.
II.
Existe uma Europa mais antiga sob a Europa dos passaportes e das directivas — sob a Europa gerida, subsidiada, harmonizada. Uma Europa em que a lei era algo que os homens faziam juntos à roda de uma pedra, não algo que lhes era entregue em triplicado; em que a propriedade era o fundamento da liberdade, e não o seu embaraço; em que um mercador veneziano, um camponês islandês e um cidadão de um conselho holandês de gestão das águas se teriam entendido perfeitamente no que respeita àquilo que os homens livres devem ao Estado — o que é dizer, muito pouco.
Essa Europa não pereceu em 1789, nem em 1917, nem em 1945. Foi votada em minoria, regulamentada até ao silêncio, subsidiada para a irrelevância. Os seus herdeiros foram empurrados para Viena, depois para Londres, depois para Madrid, depois para aquela espécie de obscuridade que a época confunde com refutação.
Não alimentamos a ilusão de que esta é uma história arrumada, nem de que a Europa mais antiga estava isenta das suas crueldades e das suas contradições. Mas publica-se em sua memória, e na convicção de que a memória não é o mesmo que a nostalgia.
III.
Três convicções duradouras sustentam este projecto.
A tradição europeia de liberdade é mais antiga do que a americana, e mais estranha. Não é, na sua raiz, uma tradição de direitos reclamados contra um rei longínquo. É uma tradição de instituições — cantonais, comunais, gremiais, mercantis, consuetudinárias — que tornaram os reis desnecessários antes que eles tivessem o atrevimento de se declararem necessários. É medieval antes de ser moderna, e é tanto melhor por isso.
A economia austríaca é a herança mais subestimada do continente. Carl Menger num café vienense, Mises numa sala de seminário, Hayek num púlpito londrino — estes homens construíram o mais rigoroso relato que possuímos de como pessoas livres se coordenam sem plano e sem senhor. Que esta tradição seja hoje lida sobretudo em inglês, na América, e caricaturada como mobília libertária, é uma acusação à memória europeia, não à pertinência austríaca.
As ideias merecem dignidade nos materiais que as transportam. A capa de um livro, o cartão com uma citação, a camisa impressa — estes são os limiares em que as ideias tocam as mãos dos vivos. Compor uma frase de Bastiat em tipografia desleixada não é um acto neutro; é uma declaração, por mais involuntária que seja, de que as suas frases já não valem a pena preservar com boa-fé. Discordamos, e procedemos em conformidade.
IV.
Não somos um think-tank. Não emitimos recomendações de política, não cortejamos financiadores, não tomamos posição sobre o Parlamento Europeu, o euro, nem eleição alguma.
A nossa política, se a palavra se aplica, é mais antiga do que a política propriamente dita: a convicção duradoura de que os homens livres, vinculados aos seus próprios contratos e à sua própria consciência, constroem vidas melhores do que as geridas a partir de um gabinete — por mais bem apetrechado que esse gabinete esteja.
O que fazemos é, pois, mais simples, e talvez mais duradouro. Lemos os autores que a Europa meio esqueceu. Traduzimos o que merece ser traduzido. Compõem-se as palavras nas línguas em que foram primeiro forjadas. Publicam-se ensaios, edita-se uma newsletter, e fazem-se alguns objectos — uma camisa, um cartaz, um cartão com uma frase antiga na sua língua original — que transportam ideias para salas onde as ideias são, de outro modo, indesejadas.
Isto não é uma revolução. É, poder-se-ia dizer, um regresso. E se alguma coisa disto encontrar o seu leitor, o projecto terá cumprido o seu propósito.
V.
Uma Europa mais antiga. Uma Europa mais livre.
Não por nostalgia. Por herança.
— Old Continent Liberty